segunda-feira, 1 de maio de 2017

Advogados pedem indenização milionária de R$ 8 milhões após processo anulado de pedreiro acusado de ter matado menina em Igreja

Caso Gabrielli continua sem solução em Santa Catarina

No dia 3 de março de 2007 a menina Gabrielli Cristina Eichholz, de 01 ano e 6 meses de idade, foi encontrada morta dentro do tanque de batismo de uma Igreja Adventista do Sétimo Dia, em Joinville, Santa Catarina. A pequena Gabrielli foi deixada pelos pais em uma sala da Igreja junto com outras crianças sob a responsabilidade de lideres religiosos, enquanto eles (os pais) participavam do culto. Quando voltaram para busca-la, ela estava desaparecida e, depois de buscas, foi encontrada dentro do tanque de batismo morta.

Passados alguns dias, o pedreiro Oscar do Rosário foi acusado pela polícia de ter sido o autor do assassinato da menina, com apontamento do laudo do IML de violência sexual e estrangulamento.  Preso, o pedreiro confessou ter matado a criança e participou da reconstituição do crime, mas, semanas depois disse ser inocente, e que só confessou porque foi ameaçado por policiais e acreditava que a polícia iria em buscas de outras provas. ‘Pensei que eles não iam só ficar com o meu depoimento, procurar mais provas e ver que não era eu. Não fui eu quem fez isso”, disse Oscar em entrevista à RBS TV.

O homem que chegou a ser condenado por matar a menina foi solto após o processo ser anulado e, hoje, cobra na Justiça uma indenização de R$ 8 milhões. Dez anos depois, dúvidas e reviravoltas ainda marcam o caso. As causas da morte da menina Gabrielli permanecem desconhecidas.

Caso teve reviravolta em 2010

O homem acabou condenado a 20 anos de prisão por um júri popular realizado em 2008. Ele passou três anos e 14 dias preso, quando ganhou a liberdade em meio a uma reviravolta. O Tribunal de Justiça de Santa Catarina considerou que houve falhas na investigação e anulou todo o processo que apurou, julgou e condenou o pedreiro. A decisão foi tomada em março de 2010, com voto favorável de cinco dos nove desembargadores aptos a decidir.

Devido ao arquivamento, a defesa de Oscar pede a indenização milionária pelo tempo em que ele ficou preso. A ação busca um valor maior do que o já conquistado na Justiça, que condenou o Estado a ressarcir o pedreiro em R$ 40 mil. O recurso chega a R$ 8 milhões e foi recebido há poucos dias por um dos desembargadores de Florianópolis, mas ainda não tem data para ser julgado. “Primeiro, eu pergunto: quanto vale um dia de liberdade da sua vida? Ainda mais você sabendo que é inocente. Você sabendo que está lá por algo que não cometeu. Por um crime horrendo da forma como ele foi acusado. Todo mundo, num primeiro momento, queria matá-lo”,  questiona Elizângela Asquel Loch, advogada de Oscar.

Para o promotor de Justiça Giovani Tramontin, que pediu a condenação de Oscar no júri, o fato de o processo ter sido anulado por falhas na investigação não representa a inocência dele. “Ninguém disse que não foi ele. O que se está dizendo é que não se tem mais prova para sustentar a acusação. Ele não foi absolvido”, explica.

Anulação do processo

Já a defesa diz que, na época, todos que deram depoimento, ninguém cita o Oscar, ninguém viu o Oscar na igreja e que desde o início tentava provar que havia possíveis falhas na investigação do crime. Insatisfeitos com o laudo que apontou violência sexual e assassinato, os advogados pediram uma segunda análise para a causa da morte de Gabrielli. “Nós fomos buscar uma segunda opinião. E no laudo e nas explicações, de maneira nenhuma aconteceu a esganadura ou o abuso sexual. Tanto que ela tinha água no pulmão. A morte dela foi por afogamento”, comenta a advogada.

Além do documento que, segundo a defesa, aponta um acidente, em vez de abuso, os advogados de Oscar apresentaram registros telefônicos de um orelhão que fica a dois quilômetros da igreja. O relatório indicava ligações para o celular da irmã de Oscar no mesmo dia e horário em que teria ocorrido a morte a menina. Eles citam ainda que a anulação do processo pelo Tribunal de Justiça também considerou a falta de um mandado de prisão e uma possível confissão coagida. “O Oscar novamente pediu por um advogado, o delegado disse que não, que ele não precisa de advogado. Que o advogado vai ser chamado e nomeado por nós delegado”, relata Elizângela.

No entanto, o promotor Giovani Tramontin não acredita em uma possível coação. “Estava muito claro que ele não foi agredido porque foi filmado o interrogatório dele. A confissão dele foi toda filmada, tem um vídeo de aproximadamente uma hora no qual ele confessava tudo com riqueza de detalhes. De como é que ele pegou, onde é que ele assentou, como é que ele fez tudo, com riqueza de detalhes”, recorda.

Silêncio e recomeço

O delegado Rodrigo Gusso, que esteve à frente das investigações, e Dirceu Silveira, delegado regional de Polícia Civil de Joinville na ocasião, não comentam sobre o caso. Os pais da menina também não quiseram falar sobre o assunto. A família chegou a acionar judicialmente a Igreja Adventista do Sétimo Dia, por negligência, mas entrou em um acordo com a instituição.

Já Oscar Gonçalves do Rosário mantém silêncio sobre o período que mudou sua vida. Solto há sete anos, ele tenta reconstruir a vida em Canoinhas, cidade onde nasceu. Hoje casado e pai de um filho, ele trabalha como operário agroindustrial e busca esquecer o passado. “Essas coisas, eu nem gosto de ficar falando. Na verdade, a lembrança vira até para a raiva”, conta. Fora da prisão, ele prefere pensar no futuro com a família. “Um pouco já está sendo realizado, mas tem mais. Meu filho tem cinco anos e quero ver ele formado, ser grande na vida. O que eu quero é dar um futuro diferente para o meu filho”,  finaliza.

Foto: Marco Antonio Mendes / RBS TV

Da Redação

Nenhum comentário:

Postar um comentário